sábado, 9 de maio de 2009

TELA

Um barco singrava as águas, e sobre meu peito a noite caía. Uma noite chuvosa e fria a contrastar com o entardecer alaranjado que inundava meu quarto ao entrar pela janela aberta à lagoa. Janela que servia de moldura às águas brilhantes e ao remador, que em seu pequeno barco branco, numa silhueta tênue, cruzava vagarosamente o meu quadro vivo. Da base para o alto e da esquerda para a direita o movimento do barco e a força dos remos jogados às águas iam marcando compassadamente a tela laranja num movimento multicor que avançava até se perder na moldura azul marinho do umbral de minha janela. Meu quarto se tornara a bizarra galeria deste único quadro inebriantemente repleto de luzes e cores que nem mesmo Gauguin seria capaz de reproduzir matizes tão vibrantes ou mesmo Van Gogh poderia expressar tal movimento.
Lá fora este painel vibrante e aqui dentro o chumbo cinzento da amargura. Isto dentro de mim, porque em meu quarto, ainda iluminado pelo entardecer, a mesa permanecia posta: as xícaras brancas pintadas com flores amarelas tinham ainda um pouco do chá silvestre de cor avermelhada; o bule e os pires combinando; os talheres de alumínio; as torradas marrons delicadamente postas uma ao lado da outra, compunham um arranjo harmonioso sobre a toalha de rendas brancas.
Na estante, os livros lidos e não lidos, uns ao lado dos outros, uns sobre outros - poemas, contos, romances, ensaios - guardavam uma simetria que vida alguma ousa possuir.
As portas e paredes, o chão e o teto, com suas cores pastel. A minha cama de madeira clara, forrada por lençóis azuis claros, quase transparentes, completavam o enredo em que meu desalento se fez personagem. Tudo em meu quarto era paisagem. Tudo à minha volta era luz e cor. Somente em meu peito é que reinava a escuridão da noite.